{Estrangeira #103} Espaço vazio
Tive uma revelação
Em breve completo 15 anos de Europa. É ano a beça. Vivi toda a minha fase adulta fora do Brasil. Eu era nova demais para valorizar certas coisas. É normal, eu sei. Quando a gente é fresco no mundo, brotinho, quer abraçar todas as possibilidades, ver o que tem longe, lá fora.
De uns cinco anos para cá, passei a considerar e a namorar a possibilidade de voltar. É difícil colocar no papel e quantificar as faltas da nossa vida aqui. É que estamos em clima ameno, em uma cidadezinha deliciosa com gente amistosa e tudo corre relativamente bem.
Fui uma criança sozinha, exceto quando estava com minhas primas e primos. Eu era alta e já era meio diferente nessa época. Gostava de ir ao Jardim Botânico para catar folhas caídas e prendê-las com contact em um caderno. Assinava Cães & Cia e assistia filmes de terror. Só fiz uma amiga da infância aguentou a vibe mesmo sem saber muito bem do que se tratava (obrigada, Dani por ficar mesmo quando eu tirava cenouras de dentro da mochila <3).
Na adolescência comecei a encontrar minha tribo e aprendi a fazer mais amigos além dos primos e da Dani. Amigos que duram até hoje. Amigos que são como primos também porque me têm a vida toda e entendem de onde vem o que eu falo. Amigos que sabem a minha história e que viveram essa história junto comigo. Amigos que me dão toques porque têm repertório para isso.
Na Europa não tem isso. Primeiro porque a forma como brasileiros e europeus se relacionam é diferente. Pode ser um pouco mais próxima em Portugal do que, por exemplo, na Alemanha, mas é diferente sempre. Depois porque as relações que a gente constrói adulto dificilmente vão alcançar o nível de intimidade e aceitação que construímos antes das preocupações com boletos.
E fica um vazio. A gente se ocupa com a novidade da vida no exterior, depois com boletos e filhos, mas o vazio fica lá. E quando reparamos nele, não tem volta. Passamos a vê-lo em todo lugar. A falta berra e ensurdece, a falta dos primos que nos são dados e os que são construídos se estampa em toda interação vivida. Nada se compara.
“Ah, mas tem telefone” Não é a mesma coisa. O telefone é um shot de água com sal quando estamos morrendo de sede.
Estive no Rio por uma semana e todos os dias vi entre dois e cinco amigos e não fiquei esgotada em nenhuma medida. Sabe aquela coisa de encontrar pessoas no fim de semana e precisar de dois dias de recolhimento para se recuperar? Não teve disso. Não teve disso porque as relações são tão seguras que não exigem tanto de mim.
Não me entendam mal, eu adoro as pessoas que fazem parte da minha vida aqui, mas me dei conta que uma parte de mim está performando. Não no sentido de eu fingir ser algo diferente do que sou, mas no cuidado com as palavras e ações, nas dinâmicas bem pensadas e no desejo de construir algo remotamente similar com a primaiada que deixei no Brasil.
E meus filhos sabem. Temos a sorte de sermos visitados por esses primos da vida e meus filhos sabem que o amor que vem daí é incondicional. Minha filha mais nova se confunde com quem é primo mesmo dela e quem é filho de amigo. Ela passou a chamar todo mundo de primo e não a julgo. Está certa. Os filhos deles todos cabem no meu bolso, têm meu amor e proteção porque sim. Sei que os meus também encontram isso neles. Os filhos levam dentro famílias inteiras.
A pegadinha da vida é ter que se desprender para querer se estar agarrado.



oi querida,
Muito lindo o que escreveu e eu posso afirmar que as amizades que fazemos na infancia e juventude ficam para sempre mesmo que fiquemos muito tempo sem vê_las.Quando encontramos estes amigos de novo ,parece que o tempo parou e voltou para trás.
A intimidade é igual. Eles são parte de nossa vida nossa construção como pessoa.
Sempre vou tentar, mesmo longe te dar apoio .Sei que precisa de uma rede de apoio maior como todo expatriado. TODA FAMÍLIA TE AMA
Que lindo Roberta! Devo admitir que depois de passar um mês no Brasil esse ano, também tô lidando com esse vazio. Só queria poder ir numa padaria e pedir um bolo de cenoura sabe? Hahaha