{Estrangeira #101} A invisibilidade do imigrante
Quando perdemos partes de nós
Quando imigrei para a Alemanha, esperava grandes mudanças no meu mundo interno e externo, mas realmente não previa apagar traços da minha personalidade. Eu expandi muito, aprendi demais e, no meio deste turbilhão, não me dei conta do que estava acontecendo paralelamente: pouco a pouco a tal invisibilidade do imigrante me contaminava.
Começa com o idioma
Já morava em Berlim há 2 anos quando fui ao Brasil com o Rodrigo, um amigo brasileiro que fiz na capital alemã. Lembro que estávamos esperando o metrô quando ele me disse:
“Nossa, amiga, você é tão diferente aqui! Fala com todo mundo!”.
Apesar de hoje sempre voltar a esta memória, não foi algo que me importei muito na época e relacionei o comentário do Rodrigo ao meu domínio rudimentar do idioma alemão.
A gente sempre percebe que muda um pouco em cada idioma, isso é claro. Nos faltam palavras porque naquela língua simplesmente não precisam dela e a gente acaba se adaptando. Tem tanta caixa às quais nos encaixamos quando mudamos para um novo país que às vezes fica difícil se dar conta que empacotamos certas partes de nós.
Em um país onde a língua alemã é a oficial, imigrantes normalmente não têm muita facilidade na comunicação logo de cara. Com uma terceira língua no jogo, normalmente o inglês, mais ainda se perde.
O tempo passou e eu amava morar em Berlim. Já havia morado em outros países, mas nenhum havia me dado tanto quanto a Alemanha. Fui muitas versões de mim e cresci demais como pessoa ali. Cresci tanto que nem percebi que partes estavam se apagando.
Uma reviravolta interna
Com nove anos de Berlim, já mãe do meu primeiro filho e com melhor domínio do idioma, me dei conta pela primeira vez que o Rodrigo estava certo: eu realmente era diferente em Berlim e isso não tinha só a ver com o domínio da língua. Claro que a falta de domínio do alemão contribuiu para a construção de uma Roberta mais caladona na rua, mas era mais que isso.
Foi na festa de aniversário de dois anos do meu filho que o pai de uma então amiga o agrediu. Eu só soube do ocorrido dias depois e quis prestar queixa na polícia, mas não o fiz imediatamente. Passei a noite em claro, falei na terapia, consultei amigos. Amigos alemães apoiaram a decisão, amigos imigrantes foram contra.
Até que finalmente entendi que o que estava me segurando era o medo de ser notada, era a minha confortável invisibilidade como imigrante.
O que é a invisibilidade do imigrante?
Durante esse período difícil, eu acabei descobrindo que além de ter me beneficiado da influência feminista de Berlim que contribuiu para eu me tornar uma mulher mais livre de estereótipos, mais empática e mais segura, eu também havia sido afetada negativamente pelo medo de errar.
Medo de levar uma chamada na rua, medo de incomodar alguém ou de fazer, inadvertidamente, algo inapropriado.
Quando somos imigrantes, tememos chamar a atenção de autoridades, não queremos nos envolver com nada sério que traga à luz a nossa diversidade. Tememos falhar. Há um medo profundo e silencioso de ser chutado de volta para nosso país, de que percebam que não pertencemos.
Um medo tão enraizado que eu demorei dois dias inteiros para ser a voz do meu filho contra um adulto violento. Um medo que é muito mais evidente quando nos tornamos mães e pais, porque ninguém quer estar em uma situação opressora com um filho no colo.
Engolir sapos e me fazer caber
Culturalmente, há em Berlim uma necessidade de chamar a atenção de qualquer pessoa que não siga as regras formais e informais da sociedade. Enquanto alemães sabem navegar nessas águas com destreza, nós imigrantes muitas vezes não damos conta e acabamos nos invisibilizando. Temos simplesmente outra referência do que é aceitável e cortês.
É difícil dar um fora em alguém quando somos estrangeiros. É difícil levar uma bronca e ouvir um grito em qualquer idioma, mas em alemão é horrível.
A mais valente das pessoas pode se ver apagada e preocupada em não incomodar, como eu me vi por alguns anos. Logo eu, uma pessoa extrovertida que gosta de bater papo e rir por aí, havia me tornado alguém ansiosa ao sair de casa com meus filhos.
Já até deixei de ir a alguns lugares com medo das minhas crianças serem crianças e incomodarem alguém. Sim, eu mesma. Euzinha, que nunca engoli sapo no Brasil, perdi a conta de quantos engoli em Berlim. Engoli sapo no supermercado, no metrô, na loja, na rua, na chuva. Se tivesse passado por uma fazenda e uma casinha de sapê tinha engolido sapo por lá também.
A ficha às vezes demora, mas cai
Depois do episódio com meu filho, já atenta, me deparei com outras situações que me mostraram o quanto o Rodrigo, lá em 2013, estava certo. Berlim me deu tanta coisa boa, mas também me apagou um tanto por tempo demais. Acho que nunca me preocupei tanto em seguir regras quando morava no Brasil, o meu país de origem.
Ao me mudar para a Alemanha, sozinha, aos 25 anos, passei a fazer tudo certinho, a pesquisar avidamente por regras sociais e leis e a falar baixo. Não queria estar em destaque, não queria que me notassem de forma negativa. Era um ótimo exemplo da invisibilidade do imigrante latino na Alemanha. Não queria que percebessem logo de cara que eu não era dali, o meu sotaque, que de alguma forma não pertencia àquele espaço.
É duro admitir tudo isso, mas é mais duro ainda se dar conta de uma mudança interna assim tão opressora.
A volta por cima
Depois dessa reviravolta interior que veio após o ataque ao meu filho, passei a me manter em cheque. Nunca consegui chegar ao ponto de ser eu mesma em Berlim, mas passei a me forçar a responder em alemão, a me colocar no mundo e a me forçar a perder o medo de ser vista.
Confesso que até gritei de volta algumas vezes quando gritaram com meus filhos e, surpreendentemente, não me envergonho disso. Eu consegui, ali estava a minha voz quando eu precisei dela. Eu tinha uma permissão de residência, eu podia estar e existir ali do jeito que sou. Eu tinha que ser capaz de ser a mãe feroz que vivia dentro de mim. Meus filhos precisam de um porta-voz em um mundo de adultos.
Foi assim que me fortaleci como mãe e imigrante e hoje não consigo me imaginar novamente com partes de mim totalmente contidas em caixas que ainda não foram desempacotadas após a mudança de país. Não foi fácil, foi um processo bem longo. Fui imigrante em Berlim por 12 anos e destes, cinco como mãe.
Um conselho de quem já não é invisível
Se eu puder dar apenas um conselho para qualquer brasileiro que queira se mudar para o exterior, esse será sempre que:
Crescer, aprender e respeitar uma nova cultura é maravilhoso, mas lembrar-se que a sua existência é válida e merece ser genuína em qualquer lugar é fundamental.
Ser imigrante é, sem dúvida, uma linda jornada de autoconhecimento que testa nossos limites e nos abre para um mundo de experiências e expansão interna, mas lembremos sempre da nossa essência e não caiamos na invisibilidade como imigrantes. Foi a nossa essência que nos trouxe aqui.
Este artigo foi originalmente publicado como uma coluna no Euro Dicas no dia 2 de janeiro de 2024.
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Maravilhosa essa partilha… Refletindo sobre a própria invisibilidade que também vivi, percebi que ela muda de forma de acordo com o país em que você se encontra. Para mim é bem clara essa invisibilidade nos primeiros anos que morei no Canadá. Já na Itália, sei que ela existe, mas a forma como a vejo é muito mais sútil e fácil de lidar do que a que vivi em minha primeira imigração.